Conteúdo e informação

Viver, comer e sofrer e a riqueza das nações

A ciência econômica nasceu a partir da obra do escocês Adam Smith, “A Riqueza das Nações1” que formulava pela primeira vez os princípios de liberdade de mercado, tão caros à atual economia globalizada.

Adam SmithA ciência econômica nasceu a partir da obra do escocês Adam Smith, “A Riqueza das Nações1” que formulava pela primeira vez os princípios de liberdade de mercado, tão caros à atual economia globalizada. Não por menos a Europa e o período em que Smith vivera, estiveram diretamente ligados a força motriz da transformação que conduziu um dos momentos mais importantes da história humana, após a longa hibernação europeia (500-1500). Esse período apresentou uma revolução econômica e uma mudança no processo de produção, aquisição e gasto como nunca antes registrado e surge o mundo conforme expresso por Adam Smith, onde poderíamos também chamar de o nascimento da desigualdade, pois quando Smith rabiscava suas ideias a diferença entre as nações mais ricas para as mais pobres era de 1 para 5, mas hoje se pegarmos os famigerados africanos e compararmos a bucólica Suíça das vaquinhas malhadas, teremos uma diferença de 1 para 400.

 

Clique aqui para encontrar a obra de Adam Smith na livraria Cultura.

 

Prefiro fugir daqueles textos de grande densidade do marxista Hobsbawm, e quem sabe muito pretenciosamente, prendendo o fôlego, dar um rápido mergulho na história humana com este pequeno texto. Onde após a queda romana a Europa volta a um período de trevas em que os passos foram mais curtos e imperou uma sonolência, no entanto apesar deste cochilo, se inventou a invenção, tendo o papel e a pólvora, entre outros, como ingredientes deste prato que podia ter sido chinês, e só não foi, pelo controle estatal e falta de ousadia aos orientais e que assim serviram aos europeus. Através disto a Europa ao se impor no mundo, impôs também um modelo social que privilegiava o trabalho, a intelectualidade e o descobrimento.

 

Ao citar a falta de ousadia dos chineses que se isolaram, não tem como não lembrar as naus portuguesas, que avançaram munidas de criminosos cheios de fé, propagando uma façanha exploratória sem igual. Foi esse pragmatismo que impulsionou a glória portuguesa, e a mesma atitude ao inverso logo depois exclui Portugal da história do mundo, os transformando em fanáticos, intolerantes e cheios de vícios associados à pureza de sangue. A Espanha embora agindo um pouco diferente, para os vizinhos ibéricos, a riqueza, a pompa e a ostentação, mostrou que o dinheiro fácil é muito danoso as pessoas.

 

O descenso dos ibéricos permitiu a entrada da Holanda e da Inglaterra nos mares, processo vital na soma de pontos para o desencadeamento da revolução industrial, sem dúvida muito bem afirmada por Max Weber em sua “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, onde o individualismo, o puritanismo e a perseverança da moral protestante influenciaram um comportamento quotidiano que conduziria ao sucesso nos negócios, criando uma nova economia. Enquanto o sul da Europa se fechava e se censurava, alijando a região mediterrânea da revolução científica, o norte europeu incentivava o conhecimento e a mudança, e ser rico deixava de ser pecado.

 

Clique aqui para ver a obra de Max Weber na livraria Cultura.

 

Enquanto na Europa iniciava-se uma transformação das relações, a China que outrora arriscou aventurar-se pelo mundo, experimentou um isolacionismo só quebrado no final do século XX. Outros experimentavam o apocalipse de suas civilizações, como os ameríndios e os povos tasmanianos e polinésios. E os Estados Unidos começava a aproveitar suas vantagens naturais, ao ser composto de pequenos proprietários rurais, imigrantes e seus descendentes que vieram em busca de uma oportunidade de construir seu próprio destino, onde sua iniciativa não era limitada e a democracia lhes dava oportunidades de competir e ambicionar mais, permitindo entre outras coisas a descoberta do sistema de produção em massa, desbancando no final do século XIX as nações européias e se tornando a maior economia do mundo, posto que ocupado desde então por aproximadamente já 150 anos.

 

A América Latina por outro lado preferiu alimentar um rancor e reação aos vencedores, doutrinas de dependência e seu choro, atribuindo a culpa a todos menos aqueles que as denunciam, que colocou todos numa ineficiência econômica perpétua. Muito diferente do que aconteceu com os nipônicos, pois o Japão ao encontrar com os europeus fez o sol nascer, trataram de aprender seus métodos, apesar de não ter o protestantismo, os japoneses adotaram uma ética de trabalho muito semelhante, fazendo sua própria revolução industrial, mostrando que o segredo do sucesso residia mais no compromisso com o trabalho do que na riqueza.

 

Após a primeira revolução industrial, a Inglaterra se acomoda, abrindo espaço para que a segunda revolução industrial encontre terreno mais fértil na Alemanha e mesmo na chauvinista França, antes tão limitada pelo seu nacionalismo exagerado, mostrando que o conformismo e comodismo são plantas daninhas a uma nação. E como corolário, comprovando que o aproveitamento do mercado, a disciplina e a ética do trabalho, trazem a riqueza, surgiram nos anos 60 os Tigres Asiáticos, mostrando que o subdesenvolvimento não é um limitante.

 

Colocar mais de mil anos de história em duas ou três páginas não parece nada bom, quando estamos habituados a densos volumes e títulos sociológicos e econômicos sobre o assunto, mas quem sabe conseguimos explicações lógicas em esquemas bem mais simples e claros do que em complexas combinações históricas. E enquanto 250 anos atrás Adam Smith deu o passo inicial para a criação da ciência lúgrubre chamada Economia, tentando explicar a riqueza das nações, vemos que o porquê de alguns países serem ricos e outros não permite explicar muito do próprio processo de transformação da economia mundial, e que passou a dividir o mundo hoje em três tipos de nações, aquelas em que as pessoas Vivem, usufruem e depois gastam muito dinheiro para não aumentar de peso, as que Comem para se manterem vivas e as que Sofrem não sabendo se terão a próxima refeição.

 

1 Publicada pela primeira vez em Londres em março de 1776 – Clique aqui para encontrar a obra de Adam Smith.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.