Quem disse que a maioria tem a razão?

Como é confortável para grande parte das pessoas estarem de acordo com a maioria, e como é desconfortável ter uma opinião própria ou defender posições minoritárias, afinal “a maioria sempre tem razão”

Penso, logo existoComo é confortável para grande parte das pessoas estarem de acordo com a maioria, e como é desconfortável ter uma opinião própria ou defender posições minoritárias, afinal “a maioria sempre tem razão”. E seria quase irracional não estar do lado do mais forte, mesmo que isso tenha sido alimentado por decisões muito mais emocionais do que lógicas, ou mesmo construída ocultamente para simplesmente conduzir o rebanho, tendencialmente a escolha da maioria parece absolutamente correta e democrática, em alguns casos mesmo sendo meramente emocional parece tornar-se lógica. E muitos sentam em frente à televisão nos programas jornalísticos destinados as massas e sentem-se muito bem informados, donos da verdade, simplesmente passam a defender a opinião da maioria, a mesma maioria que por muitos séculos considerou a Terra plana.

Lembremos o teimoso René Descartes que, recusava-se a acreditar em qualquer coisa até que a tivesse verificado pessoalmente, um São Tomé da nossa filosofia. Apesar de ter vivido a mais de trezentos anos, sua filosofia merece ainda muita atenção, nela, ele duvida de tudo literalmente, inclusive da existência de Deus, do homem e de si próprio. Naquela época causou um alvoroço na França religiosa e teve que fugir para a Holanda, porém recusando o que os outros buscavam vender-lhe como sendo a verdade, e usava dos seus sentidos e experiências para tentar buscar a verdade, até formular o: ‘’Cogito, ergo sum’’, ou seja: ‘’Penso, logo existo.’’ Deixando de ser um espectro fantasmagórico, continuou a comprovar ou rejeitar inúmeras verdades postuladas, a jogar e a beber vinho caros. Neste processo deixou muitas contribuições a matemática e abriu novos caminhos para a filosofia, insistindo em descobrir a verdade por conta própria.

Para Descartes, o truque que ele deixava evidente em seus textos, é o de rejeitar o que lhe dizem, até ter pensado tudo pela própria cabeça. Duvidar das verdades afirmadas por autoproclamados especialistas, e recusar até a ouvir a opinião da maioria. Registrou, ele que: ‘’Não existe praticamente nada que tenha sido afirmado por um sábio e não tenha sido contraditado por outro.’’ E também: ‘’Contar votos não serve de nada. Em qualquer questão difícil, é mais provável que a verdade seja descoberta por uns poucos do que por muitos.’’ Com certeza isso fez dele um cidadão arrogante e certamente solitário naquela época.

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Na nossa era democrática, no nosso democrático lado do mundo, tendemos a aceitar sem críticas a opinião da maioria. Se um monte de gente diz que é assim, tudo bem, assim seja. É como nós pensamos. Se não temos certeza de alguma coisa, vamos contar os votos. Desde pequenos somos ensinados que a maioria está sempre com a razão. A maioria deve estar certa, mas as probabilidades são contra eles. Costumamos ter o hábito de achar que todas as afirmativas muito repetidas são a verdade. Afinal Hitler comentava em seu Mein Kampf, que um dos preceitos judaicos era de que “uma mentira dita mil vezes tornar-se-ia verdade”. Assim: “A previdência vai quebrar antes de me aposentar”, ‘’Estamos diante de uma possível bolha imobiliária’’, “O Brasil é o país do futuro”, “Vale mais um pássaro na mão que dois voando” afinal quase todo mundo diz isso. É verdade? Talvez sim, talvez não. Descubra você mesmo. Tire suas próprias conclusões. Não engula o que te dão mastigado. Não seja manobrado pela maioria, seja você. Quanto ao aforismo “a voz do povo é a voz de Deus“, me pergunto, será que Deus faria tão péssimas escolhas? Prefiro pensar como Descartes, em que “é mais provável que a verdade tenha sido encontrada por uns poucos do que por muitos”.

 

No entanto não é possível descartar a voz do povo em certas situações, mas nunca podemos negar a irracionalidade muito mais frequente do que se imagina em decisões coletivas, afinal, Pascal cunhou que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, mas será que múltiplos corações são capazes de compor um verdadeiro coração? Sem dúvida, numa perspectiva histórica, a maioria nem sempre tem razão. Portanto levar em consideração a voz do povo significa, metaforicamente, prestar atenção aos sinais de fumaça representados pelas manifestações coletivas. Não se pode ignorá-los, por arrogância ou leniência, mas não nos é permitido abdicar do exame de consciência e do juízo fundado na integridade pessoal. Se um livro, um programa de tv, ou um filme são lidos ou vistos por milhões de pessoas, isso não constitui atestado de qualidade em hipótese alguma, nem pode fundar um juízo de valor, principalmente se estão aí inseridos governos e mídias. O fenômeno merece ser estudado e a mensagem deve ser interpretada. Freud dizia que “às vezes um charuto é apenas um charuto”. E, rigorosamente, tudo o que se pode concluir da visão da fumaça é que onde há fumaça, há fumaça.

 

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