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O que vêm depois da civilização?

Como um pêndulo de um antigo relógio, a história do mundo se desenvolve2. Povos, culturas e civilizações crescem em um lado do planeta e depois desmoronam-se, somem, e floresce no outro lado, como que influídos pelo movimento pendular de Galileu3, este aplicando-se a evolução das civilizações. A nossa atual civilização encontra-se em um processo não antes visto de desenvolvimento científico assombroso, e a migração para uma sociedade do conhecimento e da cibernética4 permite atingir um estado de maior riqueza e de viver-se melhor, acesso de mais e mais pessoas aos bens de consumo e aos bens culturais, e por aí adiante, chegando os avanços da tecnologia aos mais comuns cidadãos. Difícil imaginar um fim a esta espiral “evolucionista” contemporânea, mas eis que cruza um cisne negro voando5.

Galileu GalileiUm pensamento que parece abismal, mas que quando confrontado com outros pontos da nossa conhecida história, como em Roma, que dominou a Europa Ocidental e o Mediterrâneo, onde um modesto camponês comia em um prato de cerâmica com uma qualidade que nem as mais faustosas cortes da Idade Média conheceriam séculos mais tarde. Ou que um humilde vendedor de perfumes de Pompeia sabia ler e escrever, podendo com o uso de sua faculdade se gabar, deixando uma inscrição nas pareces da cidade destruída pelo Vesúvio6, informando da sua última cópula com uma prostituta, e ler e escrever era uma faculdade que séculos depois apenas teriam acesso uma pequeníssima minoria de monges que habitavam eruditos conventos. Ou ainda se podia beber na Palestina vinho produzido na Ibéria, ou que as conservas de peixe do estuário do Sado chegassem às mesas de famílias de classe média espalhadas pela imensidão do Império. As habitações mais humildes utilizam durante o período dos imperadores romanos, tijolos e telhas de melhor qualidade que os palácios dos senhores feudais eregidos séculos depois7.

O exemplo romano é o mais latente de uma civilização que propiciou o desenvolvimento para seus habitantes, mas assim o foi quando surgiu o Egito com todo seu poderio e senhorio às margens do sagrado Nilo, e depois o país dos faraós despencou para do lado oposto erguer-se Jerusalém, a cidade querida dos profetas e assim por diante, não faltam outros exemplos exponenciais na história, as civilizações persa, dos templos de Angkor Wat, das ilhas do Mar Egeu, gregos, incas, maias e toltecas, entre outras, todas desapareceram, deixando apenas alguns resquícios de feitos que até hoje em muitos casos são inigualáveis.

Antevendo o declive da atual civilização, pergunta-se um economista brasileiro1: Por que foi escolhida a cidade de Nova York para monumental cenário da tragédia8, a mais cosmopolita dos tempos modernos, centro mundial do business comtemporâneo, assim como o foram, no passado, Cartago, Alexandria, Constantinopla, Veneza, Amsterdam, Recife ou Londres?9 Estamos diante de um trágico recuo civilizatório?

Na antiga Roma, onde as mercadorias circulavam, onde se cunhava moeda, onde se tinham desenvolvido métodos sofisticados para melhorar a produção agrícola ou onde se lia e escrevia sem ter de pertencer a uma pequena elite, sinais que contrastam com o outro mundo que lhe sucedeu, onde nada disso era possível. Forçando a identificação de que isto não foi uma mera transformação, mas uma verdadeira catástrofe.

Algumas importantes e intrigantes civilizações do passado e algumas sociedades atuais foram conduzidas à sua extinção ou estão em uma situação que se não superarem as adversidades terão o mesmo fim. Os fatores decisivos para modelar o futuro de uma sociedade são os mesmos, problemas de administração dos recursos, meio ambiente, crescimento populacional tão preconizado por Thomas Malthus10, todos os elementos que também temos que nos preocupar nos dias de hoje. Nos criando indagações como: Como pode uma sociedade outrora tão pujante acabar entrando em colapso? Qual foi o destino de seus indivíduos? Foram embora e (…) por quê? Ou será que morreram ali mesmo, de modo miserável? Será que nossa próspera sociedade acabará tendo o mesmo destino?11

Observamos que a queda romana, nosso melhor exemplo, ocorreu muito mais depressa e de forma mais inesperada e abrupta do que a previsível, se se tivesse assistido apenas a um lento declínio, sendo precipitada por erros políticos, pela degenerescência ética do Estado e dos seus líderes e, sobretudo, pelo colapso da estrutura económica que permitia a Roma manter os seus gigantescos exércitos. Na verdade, quando estes deixaram de proteger as populações contra as incursões dos bárbaros, estas deixaram de sentir que valia a pena pagar impostos; sem impostos não se podia pagar aos legionários e com menos legionários ainda havia menos protecção. Entrou-se assim numa espiral viciosa que provocaria o rápido desaparecimento do Império do Ocidente, algo que surpreendeu os próprios cidadãos de Roma. O que nos remete ao alerta: Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria para sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria errado repetirmos a sua complacência.

Diante disso, quando em 2008 um crise imobiliária na mais pujante nação do planeta provoca uma ruptura, permeando a falência coletiva do abonadíssimo setor bancário – o coração do sistema – a quebra de países e a queda de governos, possível escassez de recursos, alimentos que matam, ameaçadas nucleares e novas e contagiantes doenças e epidemias. Deixam implícito, que confiar em tecnologias capazes de salvar o mundo é uma abordagem temerária. Dentre as civilizações que entraram em colapso no passado e as que correm risco de entrar no presente, muitas dispõem de sofisticados aparatos tecnológicos para os padrões de seu tempo.

O fim do ocidente romano foi testemunha de horrores e perturbações de um tipo que sinceramente esperamos nunca ter de viver, e destruiu uma civilização complexa, atirando os habitantes do Ocidente de volta a um padrão de vida típico da época pré-histórica. Onde que estaria o comprometimento, a responsabilidade final, para mudar essa atitude, senão em nós. Que escolhas econômicas, sociais e políticas ainda podemos fazer para não termos o mesmo fim?

REFERÊNCIAS:

ABREU, Armindo. Delenda New York, a nova Cartago!!!. Disponível em: <http://www.armindoabreu.ecn.br/artigos/delenda.PDF> Acessado em: 27 de agosto de 2012.

DIAMOND, Jared. Colapso – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Editora Record, 2005

MALTHUS, Thomas Robert. Ensaio sobre a população. Traduções de Regis de Castro Andrade, Dinah de Abreu Azevedo e Antonio Alves Cury. Editora Nova Cultural Ltda. São Paulo – SP, 1996.

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro – O impacto improvável. Gerenciando o desconhecido. Tradução de Marcelo Schild. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008.

WARD-PERKINS,Bryan. A Queda de Roma e o Fim da Civilização. Tradução de Inês Castro. lêtheia Editores, 2006.

 1 Odair Deters, Economista CORECON/RS 7918

 2 Nos antigos tempos, o dogma da evolução não existia; então, os sábios entendiam que os processos históricos se desenvolvem sempre de acordo com a Lei do Pêndulo.

 3 A descoberta da periodicidade do movimento pendular foi feita por Galileu Galilei.

 4 Ciência que estuda os mecanismos de comunicação e de controle nas máquinas e nos seres vivos.

 5 Até meados de 1697, ano em que a Austrália foi descoberta, não havia registro da existência de cisnes de outra cor que não o branco. Foi no novo país que cisnes negros foram vistos, pela primeira vez, derrubando uma crença. Nassim Taleb, em seu livro A lógica do cisne negro, vale-se desse fato para caracterizar eventos cuja ocorrência não é prevista ou tida como impossível, portanto ninguém se prepara.

 6Estravulcão localizado no Golfo de Nápoles, Itália, famoso pela erupção em 79 d. C., que resultou na destruição das cidades romanas de Pompeia e Herculano

 7 Ward-Perkins,Bryan. A Queda de Roma e o Fim da Civilização. Tradução de Inês Castro. Alêtheia Editores, 2006.

 8 Atentados ocorridos em 11/08/2001 no Word Trade Center – WTC

 9 ABREU, Armindo. Delenda New York, a nova Cartago!!!. Disponível em: <http://www.armindoabreu.ecn.br/artigos/delenda.PDF> Acessado em: 27 de agosto de 2012.

 10 Thomas Robert Malthus – economista – Tornando-se famoso por suas perspectivas pessimistas, mas muito influentes, preconizando os limites do crescimento populacional e suas consequências.

 11DIAMOND, Jared Colapso – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Editora Record, 2005

 

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