O Homem Astuto

A respeito de sua pergunta sobre a lembrança de si e o homem na hora da morte, seria melhor relatar-lhe uma história.

“A respeito de sua pergunta sobre a lembrança de si e o homem na hora da morte, seria melhor relatar-lhe uma história. É uma velha história, contada nos grupos de Moscou em 1916, sobre a origem do sistema e do trabalho, e sobre o significado da lembrança de si. A narrativa acontece em um país desconhecido, em data ignorada.

Ouspensky

Conta-se que um homem estava passando por um café quando encontrou o diabo em estado de necessidade, de extrema penúria. Estando ambos famintos e sedentos, o homem astuto entrou no café com o diabo, pediu que lhe servissem um cafezinho e perguntou-lhe a causa de seu estado de miséria. O diabo, então, respondeu-lhe que os negócios estavam parados. Disse que costumava comprar almas e queimá-las até virarem carvão; quando as pessoas morriam, tinham almas muito gordas, que podia levar para o inferno e deixar todos os diabos muito satisfeitos. Naquele momento, porém, as fogueiras do inferno estavam extintas, porque, quando as pessoas morriam, não tinham alma nenhuma.

Então, o homem astuto disse que talvez eles pudessem fazer negócio e acrescentou: Aguia em voo‘Ensine-me a fazer almas e lhe farei um sinal para lhe mostrar quais pessoas têm almas feitas por mim’, e pediu mais um café.

O diabo disse que bastava ensinar-lhes a se lembrarem de si, a não se identificarem e tudo o mais, e, depois de certo tempo, teriam almas formadas. O homem astuto começou então a trabalhar, organizando grupos e ensinando pessoas a se lembrarem de si. Algumas delas começaram a se trabalhar seriamente, tentando não se identificar e outras coisas desse tipo.

Então morriam e, por muito tempo, as coisas se passaram da seguinte forma: quando chegavam às portas do paraíso, São Pedro estava lá, com as chaves de um lado e o diabo do outro, e ia abrir o portão junto com o diabo, dizendo: “Posso fazer-lhe só uma perguntinha? Você se lembra de si?” E eles respondiam: “Claro, com certeza”. O diabo então dizia: “Desculpe-me, mas esta alma é minha”.

As coisas ocorreram dessa forma por muito tempo até que, por alguma razão, conseguiram comunicar à Terra o que estava acontecendo no portão do paraíso. As pessoas, então, foram ter com o homem astuto, dizendo: “Para quê você nos ensina a nos lembrarmos de nós mesmos se, quando contamos que nos lembramos, o diabo nos leva?” E o homem astuto disse: “Ensinei-os a falar que se lembravam de si mesmos? Ensinei-os a não falar!” Então as pessoas disseram: “Mas trata-se de São Pedro e do diabo!” E o homem astuto perguntou: “Vocês viram esses dois, São Pedro e o diabo, nos grupos? Muito bem, então não falem! Algumas pessoas não falaram e conseguiram entrar no paraíso. Não fiz apenas um acordo com o diabo, elaborei também um plano para enganá-lo, mas se as pessoas falam…”

 

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