O EXEMPLO MALAIO

Por Odair Deters

Nós brasileiros conhecemos ou ao menos temos ouvido seguido os telejornais informarem o que poderiamos chamar de medidas impostas ao Brasil, principalmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as quais até onde conheço são sempre acatadas pela República das Bananas. Algo comum num país com uma população medrosa, que se vê incapaz de enfrentar a ortodoxia econômica mundial.

Porém nem todos os países se conformam em seguir as diretrizes impostas, e como exemplo disto citamos a Malásia, que é um país localizado no sudeste asiático, com um território um pouco maior que o do Estado do Rio Grande do Sul, e uma população que representa o dobro da deste Estado.

A Malásia tornou-se uma emergente economia multi-setorial, principalmente com a exportação de produtos eletrônicos. Como conseqüência, o país foi atingido e sofreu com a crise asiática de 1997 e com recessão global de 2001 a 2002.

Com uma ação corajosa a Malásia bloqueou os fluxos de dinheiro de portfólio de curto prazo e ao mesmo tempo buscou tornar o país atraente para investidores diretos de longo prazo.

Este país asiático tinha cambio flutuante e mudou para cambio fixo, restringiu a saída de capital, numa típica política de controle de capitais, saindo de uma economia aberta, com perfeita mobilidade de capitais para uma economia com imperfeita mobilidade de capitais.

O portfólio de investimentos ou investimentos indiretos refere-se aos valores monetários aplicados em ações e títulos públicos. Suas tendências e flutuações são determinantes importantes, do desempenho econômico de alguns países, assim como das opções, diretrizes ou escolhas de política econômica.

E mesmo com a crise de 1997, e a imposição de um controle cambial, a taxa média de crescimento per capita da Malásia manteve-se alta, inclusive acima dos níveis latino-americanos. atingindo o sucesso no enfrentamento da crise asiática. Como as políticas acrescentaram renda à população a mesma pode considerar-se eficiente.

Pesquisando na Web, conseguimos estimar o sucesso das atuais políticas cambiais da Malásia. Com a imposição de controles sobre a saída de capitais. Esse caso é especialmente relevante porque, primeiro lugar, controles sobre a saída (oposição aos controles sobre a entrada) de capitais são aqueles que sofrem os maiores ataques por parte dos economistas, instituições e governos liberalizantes. Em Segundo, porque quando foram adotadas as restrições, a comunidade financeira internacional prognosticou o seu rotundo fracasso, era um Davi enfrentando Golias. E, em terceiro, porque a comunidade liberalizante não só previu seu malogro como efetivamente agiu contra a Malásia, como bem conhecemos, sempre age assim. No entanto, a despeito de previsões frustradas e ações adversas dos liberalizantes, os controles foram muito bem-sucedidos na Malásia, em 1998, o governo malaio também passou a evitar a alta da taxa de juros doméstica que seria necessária para assim fazer reverter fugas de capitais, corajosamente a Malásia deu exemplo a todos os países vítimas de políticas econômicas liberalizantes

Apesar da eficácia dos controles e da manutenção das políticas expansionistas, no inicio da aplicação a Malásia sofreu com a redução do seu Produto Interno Bruto – PIB. Contudo, a recuperação foi rápida, graças à redução das importações devido à queda da demanda, e pelo retorno da confiança do investidor financeiro na estabilidade da moeda malaia (ringgit), esvaziando planos especulativos. O sucesso claro deveu-se a abrangência dos instrumentos de controles que evitaram truques legais ou ilegais que poderiam burlar as regras que haviam sido estabelecidas, a imposição foi que não haveria exceções às regras, e a transparência, para ampliar o entendimento e assim não sofrer tanto com resistências

A reação externa, contudo, não foi favorável às medidas. As agências de avaliação de risco, famosas por correrem investidores de diversos países através de suas avaliações, que muitas vezes revelam-se um rotundo fracasso, demonstrando apenas o interesse de uma pequena elite, também aplicaram suas imposições e qualificações negativas a Malásia, reduziram o crédito da Malásia justificando que as medidas de controles representavam uma ameaça às transações comerciais com o exterior e aos investimentos diretos, estes últimos eram as mais importantes variáveis que explicavam o rápido desenvolvimento econômico do país. A Malásia foi retirada dos índices de investimentos em mercados emergentes que orienta os administradores dos grandes fundos internacionais, inclusive o poderoso índice Morgan Stanley anunciou que a retirada tinha sido para sempre e que a inclusão da Malásia no índice anteriormente tinha sido uma descabida aberração. Outro a tentar enfraquecer as atitudes malaias foi o FMI, que buscou fórmulas para boicotar as medidas desenvolvidas, porém não conseguindo legalmente subsídios diretos para sanções, porém não tirou os olhos para o que deveria estar qualificando de extremismo econômico.

Dentro de suas fronteiras o apoio às medidas de controles foi rapidamente conquistado. Os empresários positivamente receberam as mudanças, a partir das quais poderiam assim planejar receitas, custos e compromissos de dívidas futuras. O acerto malaio logo foi aceito pelos índices internacionais e inclusive os que a baniram, os aceitaram rapidamente de volta.

No entanto, ressaltamos que a Malásia fez exatamente o oposto do que sugere o receituário-padrão do FMI .O Fundo sugere a flutuação da taxa de câmbio, enquanto que a Malásia fixou a taxa de câmbio, bem como o FMI também sugere a elevação da taxa de juros, e a Malásia a reduziu, o FMI ainda receita a redução dos gastos públicos para estabilizar a relação dívida pública com o PIB, e o governo malaio aumentou os gastos públicos. O controle de capitais malaio foi rígido e propiciou a aplicação de todas estas medidas, sem assim precisar obedecer aos incautos do FMI, e ademais a Malásia ganhou respeito nos mercados financeiros, que a partir de agora, sabem que se ameaçarem atacar a moeda malaia, poderão sofrer com a perda da liquidez de suas aplicações.

O sucesso das medidas refletiram diretamente no crescimento subseqüente do PIB, a queda da taxa de inflação, e o desemprego manteve sempre abaixo de 4%, as importações e exportações malaias não tiveram grandes alterações, mantendo esta última um superávit, com crescentes reservas em moeda estrangeira e ouro.

Embora seja de conhecimento, que os controles de capitais têm sido objeto de intensa crítica de economistas liberais, especialmente na última década. Notamos que tais controles desestimulam investidores externos e, com isso, contribuem para manter elevadas as taxas de juros domésticas nos países que se recusam a abrir suas contas de capitais. Esses argumentos utilizados, com forte embasamento na literatura econômica, são não apenas falsos, mas profundamente irresponsáveis.

Mesmo defensores da abertura financeira, senhores do FMI, têm sido incapazes de demonstrar seus benefícios, eles simplesmente crêem que essas virtudes existem, e por conseqüência fazem os medrosos acreditarem também.

A evidência disponível é amplamente favorável à adoção de uma atitude no mínimo cautelosa quanto à conveniência de países em desenvolvimento eliminarem restrições sobre a movimentação internacional de capitais.

Mais relevante para países em desenvolvimento é a experiência de países como a Malásia, que administrou uma grave crise de balanço de pagamentos através da imposição de controles, e que hoje é amplamente apontada como um exemplo de sucesso, até mesmo pelos círculos que previram sua descida as regiões dantescas, porém a adoção destes instrumentos não levou a Malásia ao inferno, para tristeza de um grande grupo de teóricos liberalizantes.

A crença profunda e ilimitada na sabedoria espontânea dos mercados é matéria para culto dos abonados velhacos que se encontram sentados numa cadeira do FMI, e que vivem a facilitar interesses ocultos, não para a prática de política econômica.

Odair Deters, estudante de Economia – UCS

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1 comentário

  1. Patrícia Diz

    Fantástico este texto, muito bem elaborado… me rendeu 1,5 pontos na cadeira de Macroeconomia!!

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