Democracia e a falta de virtudes

O vocalista da banda Ultrage à Rigor1, Róger Moreira em uma recente carta2, diz ter lutado contra a ditadura, tomado borrachadas e engolido gás lacrimogênio quando corria da cavalaria durante as perigosas manifestações populares ou enquanto pichava nos muros slogans como: “Abaixo a Ditadura”.

O vocalista da banda Ultrage à Rigor1, Róger Moreira em uma recente carta2, diz ter lutado contra a ditadura, tomado borrachadas e engolido gás lacrimogênio quando corria da cavalaria durante as perigosas manifestações populares ou enquanto pichava nos muros slogans como: “Abaixo a Ditadura”.

Porém vislumbrando a situação atual, o mesmo pede desculpas à população brasileira por ter feito parte deste levante, em que colocou o país e situações das quais se visualizam pessoas morrendo em filas de hospitais, bandidos matando por trocados, pessoas drogadas andando como zumbis, meninas tão jovens parindo crianças sem pais, uma enorme classe política desfilando uma incompetência absurda, uma policia corrompida e um país ridicularizado por tantos escândalos.

Mas os vícios que impregnam a mente vulgar dos políticos devem ser vistos como meras projeções populares. Não se pode esperar virtude numa democracia representativa quando as duas partes do processo democrático não possuem virtudes democráticas. A democracia praticada sem virtude é o mesmo que a democracia formal, ou uma democracia do “papel”, o que logo não é uma democracia do espírito. E a ausência de consciência política provém antes de tudo de um mau preparo cultural e educacional porque são os costumes democráticos que fazem a democracia e não as constituições e outras leis.

A democracia formal pode dar certa, unicamente por acidente, ou seja, dependendo das características dos escolhidos no processo eletivo, e as virtudes que estes carregam. Porém este risco não existiria em uma democracia substancial que é uma modalidade democrática em que está presente um bom nível de desenvolvimento da consciência política das duas partes do processo eleitoral.

No Brasil impera a democracia formal, onde a classe política brasileira tem sido renovada unicamente através das forças da natureza, ou seja, essa renovação não é de espírito, consistindo em mera substituição de indivíduos pelo decurso do tempo, os que morrem ou envelhecem são substituídos pelos mais jovens, porém sem trazer necessariamente uma renovação de espírito. Sendo, portanto a classe política a principal gerenciadora dos principais males que estão acampados na nação e impedem o seu efetivo desenvolvimento. Parido por este espírito foi instaurada à ditadura de 1964, do mesmo modo a “Nova República” de 1985 e suas sucessivas eleições nas décadas seguintes. Mas a culpa em última instancia recai sobre o povo, que escolhe ou deixa no poder, notando-se a perpetuidade no histórico do poder no Brasil das mesmas famílias no decorrer das décadas e dos séculos.

O filósofo alemão Nietzsche já defendia que a democracia era a expressão da decadência e fraqueza da modernidade. No entanto não precisamos remeter a forte visão nietzschiana para entendermos neste sentido que inclusive, uma ditadura teoricamente pode atender melhor as necessidades de um povo do que a própria democracia formal. A história tem vários exemplos dessa realidade, inclusive a própria história brasileira, onde foi precisamente em uma ditadura que o povo encontrou o seu maior desenvolvimento. Embora seja uma forma espúria de tomar o poder nas próprias mãos, sem dúvida um regime ditatorial pode ser praticado com virtude. E a ditadura praticada com virtude é ainda melhor que a democracia meramente formal, e preferível a ela. Figueiredo3 já bradou, que: “O povo sentirá, falta do governo Figueiredo”, nos lembrando ao ler o pedido de desculpas do cantor acima citado.

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Um adendo cabe citar aqui que pode ficar estranho aparecer alguém, não militar, fazendo indiretamente uma possível defesa da ditadura, cabe esclarecer neste ponto, que a mídia hoje, em destaque a que detêm maior poder de manipulação [Rede Globo], é forte em opor-se a ditatura e transformou esta palavra numa conotação tal qual a atribuída ao nazismo, sendo algo que não se deve e não se pode defender, instigando a odiarmos algo sem nossa própria analise e entendimento. Porém este mesmo canal possui um histórico de controvérsias em suas relações na sociedade brasileira. Entre elas o apoio à ditatura militar de 64, onde lhe rendeu inúmeros benefícios, em especial para o canal de televisão. Ao tornar-se notória essa relação o grupo midiático inclusive teve que reconhecer que “… à luz da história, o apoio se constituiu um equívoco4”. Eis que começou um baile em outro ritmo e esta rapidamente se adequou e passou a destacar as Diretas Já5, e ajudou a eleger o então candidato Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989, e com certeza a manipulação não terminou aqui. Porém moldou o entendimento de muitos brasileiros.

Nenhum regime, entretanto, possui valores tão nobres como a democracia essencial. E a democracia essencial, por seu existir, pressupõe uma participação crítica no seu desenvolvimento, não existindo democracia autêntica sem criticidade. A democracia essencial se desenvolve somente com a crítica, evidentemente o conceito de democracia fica sujeito a essa crítica.

“A Vontade de Poder” de Friedrich Nietzsche

No Brasil desenvolvemos uma grande capacidade para criar leis, quando o que se precisávamos era de indivíduos sérios no poder político e não de novas leis. Reformas de papéis não tendem a funcionar. Isto nos remete ao caso dos sofistas6 que passaram a construir suas “verdades” sempre em proveito próprio, e usaram como ninguém a capacidade de parecer verdadeiro o que não era e o que eles mesmos não acreditavam ser, não havendo sintonia alguma entre o reto pensar e o expressar, e assim a juventude ateniense foi atraída e guiada pelos sofistas.

Mas outro grego, Aristóteles, é enfático ao afirmar7 que: “importante não é o regime de governo, porém a virtude no seu exercício”, corroborando para a existência da ideia de que uma democracia essencial é possível, onde os escolhidos e escolhedores sejam possuidores de um desenvolvimento cultural e educacional que os impele a não concentrar o poder unicamente na formalidade, e sim no uso de suas virtudes.

 

1 Ultraje a Rigor é uma banda brasileira de rock, criada no início dos anos de 1980 em São Paulo. Idealizada por Roger Rocha Moreira.

2 Carta publicada no Diário de São Paulo, em 28/05/2013

3 João Figueiredo: 30º Presidente do Brasil de 1979 a 1985 e o último presidente do período do regime militar;

4 “A consciência não é de hoje, vem de discussões internas de anos, em que as Organizações Globo concluíram que, à luz da história, o apoio se constituiu um equívoco.” Publicado em O Globo 31/08/2013.

5 Movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil ocorrido em 1983-1984.

6 Os sofistas se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em cidade realizando aparições públicas (discursos, etc) para atrair estudantes, de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos concentrava-se no logos ou discurso, com foco em estratégias de argumentação. Os mestres sofistas alegavam que podiam “melhorar” seus discípulos, ou, em outras palavras, que a “virtude” seria passível de ser ensinada.

7Política – Texto escrito por Aristóteles, onde se encontra este entendimento.

 

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