Bullying e o programa do Chaves

Nossa moral está mudando abruptamente, novas limitações estão sendo impostas e novos erros sendo criados ou considerados, o que poderia ser certo a uma ou duas décadas atrás se torna agora algo veementemente condenável. Para ilustrar isto, nada melhor do que um dos seriados de maior audiência e perpetuidade da televisão brasileira, me refiro aqui ao seriado Chaves.

Nossa moral está mudando abruptamente, novas limitações estão sendo impostas e novos erros sendo criados ou considerados, o que poderia ser certo a uma ou duas décadas atrás se torna agora algo veementemente condenável. Para ilustrar isto, nada melhor do que um dos seriados de maior audiência e perpetuidade da televisão brasileira, me refiro aqui ao seriado Chaves (El Chavo del Ocho), transmitido em cerca de uns 60 episódios no SBT. Chaves e o bullying

Ao mesmo tempo em que considero um seriado que demonstra a precariedade da TV brasileira pela sua péssima capacidade de renovação e do público pelo seu comodismo, é um seriado de sucesso, nunca explosivo, porém com estabilidade, justamente por ter um humor sem preconceito algum, quase inaceitável aos padrões atuais recheados de limites.


Em Chaves se tivéssemos que renomear o programa hoje, ele certamente se chamaria “bullying”, pois na atual concepção, lá existe bullying contra tudo e contra todos, contra o pobre, contra o bochechudo, contra a baixinha, contra o gordo, contra o mago, contra os velhos. Temos violações a regras de boa vizinhança, pilantragem, soberba e em alguns episódios roubos e violência contra animais. Seria um programa de humor? Chiquinha nos dá aulas de como passar a perna nos outros, uma menina esperta capaz de mentir e enganar toda a vizinhança para conseguir o que quer, e que não pensa duas vezes antes de usar sua condição de menina nova e fraca para tirar vantagem. Quico, o menino rico e arrogante que faz questão de mostrar sua riqueza, sobretudo para humilhar o menino Chaves. E que dizer do professor fumando charuto em plena sala de aula? Na frente de crianças! Depois que o Instituto Tavistock implantou nas mentes modernas que o cigarro é algo abismal [Isso! você provavelmente odeia o cigarro hoje por que te ensinaram a pensar assim, há 20 anos seria diferente], bom, pois é, o professor Girafales esta quase sempre acompanhado de seu charuto, seja em sala de aula ou nas visitas a dona Florinda.


No entanto Chaves não é só uma exposição de maus comportamentos.
Quem não sabe que as pessoas boas devem amar seus inimigos e que a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena? [Frase amada, principalmente por malfeitores]. As lições de vida vem, dos personagens mais sofridos: Chaves, Seu Madruga e Senhor Barriga. Sim, Senhor Barriga. Que leva o bullying no nome, mas é um dos personagens mais bons do seriado, um empresário bem sucedido do ramo imobiliário, dono da vila, do restaurante e que praticamente abriga uma família por 14 meses de graça, aceita que um menino de rua more em sua propriedade mesmo sendo constantemente alvo de golpes acidentais por parte deste. Em um episodio, de um jeito ou de outro, todos tiram férias e vão para Acapulco, Chaves evidentemente não teria condição de ir e então, Zenon Barriga o leva para a viagem com tudo pago. Em seu, provavelmente, único momento “mau”, Senhor Barriga vai despejar a família de Seu Madruga, porém no último momento volta atrás, mente e perdoa todos os meses de aluguel atrasado.


Seu MadrugaSeu Madruga é pobre, muito pobre, lembram do seu sofá é sustentado por tijolos? Não consegue trabalho, normalmente por falta de vontade e ás vezes por falta de preparo e ainda sim vemos um homem injustiçado pelas circunstancias pois a grande maioria dos tapas que leva não deveriam ser dados nele. Durante uma serie de episódios vemos Seu Madruga na luta para dar um dia de café da manhã para o Chaves, também vemos o pobre Madruga tirando a lâmpada de casa para por na entrada da Vila, ou assumindo a culpa do sumiço dos churros, dizendo ter comido todos, para dona Florinda, quando na verdade Chaves quem os havia devorado. O próprio Chaves, menino de rua e pequeno larápio, no aniversário do Quico, rouba muitos sanduíches de presunto, em primeiro momento, pensamos que ele vai comer tudo, mas no final do episódio o vemos dividindo com Seu Madruga e este, dividindo um único copo de refresco com o garoto, em nenhum momento a atitude solidária supera ou justifica o erro do roubo, mas demonstra um humanismo.

Chaves a chave

O seriado Chaves combina a realidade, traz a sinceridade cruel das crianças e a fúria de alguns adultos, vemos cenael chavo del 8s de violência, Seu Madruga bate no Quico que chama a mãe que bate no Seu Madruga, que bate no Chaves, a pancadaria é tamanha que, muitos de nós nem percebemos a atrocidade que está acontecendo, sendo literalmente o forte descontando no mais fraco e, em principio, inocente – não havia falado que ele traz a realidade – e apesar dos muitos tapas e brigas, o seriado traz também a generosidade inerente de cada um de nós. Vemos tudo isso naqueles poucos personagens e isso faz a serie seja de certa forma tão querida. Apesar de relatar a vida de uma criança de 8 anos e suas brincadeiras, provavelmente logo mais ocupará apenas o horário noturno por andar muito em desacordo com o moralmente legal, seus dias devem estar contados, com a geração do bullying e da lei da palmada que esta crescendo e certamente vai estranhar os beliscões, cascudos, xingamentos que estão em cada episódio da série. A nossa nova geração do merthiolate que não arde, do biotônico Fontoura sem álcool e dos desenhos sem morte.


Chaves teve quase 300 episódios, no Brasil não passaram mais do que uns 60, sendo que o último foi gravado no inicio dos anos 80, e a geração Chaves ainda está ai, envelhecendo e alguns ainda de vez em quando dando risada dos episódios reprisados ao infinito, com cenas de crianças violentas e sem respeito, porém com uma forte lição de moral, que é a chave (chave…Chaves…entendem?) em seus últimos suspiros dos tempos em que ninguém crescia violento ou fraco por tomar um ponta-pé na rua.

Veja alguns episódios de 1981, acredito que não tenha visto. Está em espanhol.

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