ATÉ QUE A CASA CAIA

Todas as pessoas que ganham acima do salário mínimo são um pouco vítimas e um pouco cúmplices da perversa distribuição de renda do país.

Meio vítimas porque, além do capitalismo apropriar-se de parte do valor que geram com seu trabalho, tornam-se alvo dos desastrosos efeitos desse regime no aumento da violência urbana e rural, da poluição atmosférica, da degradação dos alimentos, do congestionamento do tráfego, das epidemias.

Meio vítimas também porque são obrigadas a adotar comportamentos baseados naquilo que Guillermo O´Donnell chama de “micro-racionalidades perversas”: estacionar o carro em local proibido, dar propina ao guarda desonesto, contratar segurança privada, molhar a mão do rapaz do cartório para tirar uma certidão na frente dos outros, furar fila e vários outros.

Todos esses atos são anti-sociais, mas, numa sociedade de tal modo desorganizada que, para evitar prejuízos e riscos, tais comportamentos se explicam.

Contudo, este fato não as absolve da meia cumplicidade com a injustiça que está na base dessa realidade absurda.

Vá lá que, dadas as circunstâncias, não seja possível evitar pequenos atos anti-sociais. Mas não há justificativa para o desperdício e para o consumismo desbragado, que terminam por elevar brutalmente o preço dos bens que os pobres precisam consumir. Quando defendem com unhas e dentes privilégios batizados de “direitos” e quando apóiam políticos comprometidos com a ordem vigente são cúmplices de uma sociedade injusta e cruel com os mais pobres.

John Galbraith, num livro admirável denominado “A cultura dos que estão satisfeitos com a vida”, acusa a sociedade americana de tirania contra 20% de sua população. Galbraith acusa 80% da população norte-americana de permitir essa situação e de ser, portanto, responsável pela opressão.

O Brasil é hoje uma sociedade com 65% integrados e 35% sob a tirania da pobreza, desemprego, sujeição ao arbítrio policial e ao crime organizado: 130 milhões de pessoas integradas de algum modo na economia e 60 milhões de miseráveis.

É certo que, entre os integrados, as pessoas situadas nos escalões inferiores dessa categoria têm conhecimento escasso da realidade do país e, portanto, não sabem nem mesmo quem são os responsáveis por eles.

Contudo, os que se encontram nos patamares superiores sabem muito bem o que está se passando. No entanto, mesmo sujeitos a incursões cada vez mais freqüentes da barbárie em seus bem guardados apartamentos e condomínios fechados, preferem suportar o risco de um assalto e a deterioração crescente de sua própria qualidade de vida a enfrentar, no campo apropriado que é a arena política, os poderosos interesses que impedem a organização de uma sociedade mais homogênea e equilibrada.

Esquecem-se de que “a coisa vai até que um dia a casa cai”.

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4474/128/

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