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A Sociedade do Medo

 Por Odair Deters

            Cada vez mais percebo que estamos construindo uma sociedade covarde e medrosa onde as pessoas são condicionadas a serem assim. Até pensei, certa vez, em montar uma teoria que demonstre que quanto mais se criam leis, códigos e formam-se advogados, mais se mergulha na sociedade do medo. (Nada contra aos meus amigos do Direito). Bem, mas isso fica para outro texto.

           Revirando as páginas da história conhecida, encontramos Dom João VI, na sua fugida monárquica para o Brasil e com todo seu sistema de “Portuga”, que foi fundamental para a formação do coletivo nacional: medroso, “cagão” e fujão. Este, para defender a corte e seus privilégios, editava seus decretos reais. Quem sabe o povo sulino, marcado por sobreviventes de batalhas européias e peleias pampeanas (Guerra Guaranítica, do Paraguai, a federalista, Revolução Farroupilha…) tenha se moldado um pouco diferente. No entanto, isso está morrendo, assim como o restante, pois aceitamos ser condicionados; eita gaudério de boteco, que canta a bravura e urina nas bombachas.

            E a internet, da qual recebemos diariamente aqueles e-mails que quase nos condicionam ao medo de sair de casa, pois bandidos podem jogar algo nos vidros do carro e nos assaltarem. No cinema, nem pensar! Posso sentar numa seringa infectada com HIV. Não podemos usar desodorante porque causa câncer. E o perigoso estacionamento do shopping, onde te fazem cheirar um perfume, daí ficamos grogues e nos sequestram. Refri em lata, também tem seu agravante: a leptospirose. Confesso que tentei acreditar na história da loira exuberante que estuprava pobres homens indefesos próximo ao mercado que costumo ir, mas nem ela existe. Sem falar naquela criança toda queimada que eu tenho medo que venha a morrer e que já doei vários centavos encaminhando as fotos dela nos últimos 8 anos. Quanta gente incapaz de coordenar ideias!

            Se nós, com nossa vã liberdade, encaminhamos isso, que dizer dos que nos enfiam tais coisas olhos a baixo? Os meios de comunicação contribuem para criar “sociedades do medo”, isso já foi mais que afirmado em estudos sobre como a imprensa da América Latina aborda os problemas da falta de segurança. As telas mostram notícias baseadas em informações sobre homicídios violentos, furtos, políticas de segurança, estupros e abusos contra menores e, intercaladas nas notícias, soltam frases de alarme e preocupação que fazem com que a sociedade se sinta ameaçada e com medo, o que cria um clima de insegurança. E assim, vão seguindo os criminosos, os quais se sentem os heróis midiáticos.

            A abordagem dos meios de comunicação da região sobre os problemas da violência e da criminalidade criam na mentalidade dos cidadãos percepções de medo, imaginários coletivos que geram sociedades muito temerosas.

            Exemplo clássico é o medo dos estadunidenses com atentados terroristas, após o 11/09/01. Os congressistas dos EUA aprovaram severas leis contra a liberdade de seus cidadãos, tudo instigado pelo medo que estes sentiam como sendo possíveis vítimas de muçulmanos aéreos e explosivos.

            O que o futuro reserva? Em outro texto, eu já disse que os pais que hoje entregam um celular para poder monitorarem seus filhos, de tão temerosos que estão, farão com que essas crianças, quando tornarem-se pais, implantem chips em seus filhos, tudo nas engrenagens do medo. Os governos aprovam cada vez mais leis coercitivas e que impedem seus habitantes ao mais puro direito de liberdade, seja ela física ou de pensamento, e nós, motivados pelo medo midiático, ainda agradecemos estas medidas.

           Mesmo com todo este desenvolvimento, estamos corroídos por todo tipo de medos, e habilmente alimentados ainda acreditamos na mídia e votamos em políticos que querem assumir o papel de salvadores.

            Cada vez mais somos uma Sociedade do Medo e, acima de tudo, pessoas com medo de manifestar sua opinião.

 

 

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